Retratos Parisienses

Diz a sinopse:

Em uma temporada na Europa, na segunda metade do século XX, o cronista brasileiro Rubem Braga se encontrou com imortais das artes e do pensamento universal. Desses encontros, surgiu a oportunidade de realizar entrevistas que tornaram-se uma mistura deliciosa de reportagem, crônica e divagações líricas. Dentre os 20 entrevistados estão presentes figuras como Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso, Henri Matisse e Alberto Moravia.

Retratos parisienses é uma coleção de textos curtinhos que o Rubem Braga escreveu quando morou em Paris nos anos 1950 – a maioria deles são entrevistas com personalidades importantes da cultura ocidental, mas também tem umas divagações sobre alguma entrevista que ele ouviu na rádio, uma lembrança de algum escritor que morreu (achei a que ele fez no dia da morte do Oscar Wilde especialmente tocante), etc.

Eu não nunca tinha ouvido falar de alguns (er… vários) dos entrevistados, e achei que isso podia prejudicar um pouco a leitura, mas jura! Isso não faz a menor diferença, porque Rubem Braga descreve eles de uma maneira tão engraçada e envolvente que todos os entrevistados se tornam interessantes. Provavelmente tem a ver com o fato das fotografias não serem assim tão comuns na época, como bem lembra Augusto Massi na apresentação – a maioria das reportagens reunidas no livro não iam acompanhadas de um retrato, então Rubem Braga tinha que se virar para apresentar visualmente o entrevistado. De qualquer forma, os vários tipos diferentes e inusitados apresentados em sequência me lembrou de certa forma aquele conto do Kerouac, Cenas de Nova York (presente em outra coletânea de textos, também minha favorita, Cenas de Nova York & Outros Textos). Aliás, acho que Rubem Braga e Kerouac dividem essa característica de conseguirem transformar gente comum em personagens interessantes.

Além disso, um dos aspectos mais interessantes do livro, pra mim, que estudo Relações Internacionais, é a questão do contexto histórico. Quando eu comprei o livro e comecei a lê-lo, não esperava encontrar um panorama da vida cultural da Europa do pós-Guerra, mas foi o que aconteceu. A reconstrução do continente depois da Segunda Guerra está presente em todo o livro, seja em um sentido mais físico, como na crônica Roma,  seja em termos ideológicos, como em Sartre fala sobre a guerra.

Achei divertido também ver como as grandes personalidades da época eram acessíveis – no caso do Picasso, por exemplo, Rubem Braga simplesmente aparece na casa dele, sem ligar antes nem nada. A maneira como as entrevistas são escritas também me agradou bastante – não é naquele formato “pergunta-resposta”; Rubem Braga intercala com os próprios pensamentos, descrições e análises, o que torna o texto muito mais fluído. Antes de começar a ler, eu pensei que pudesse ser um pouco cansativo, mas não é – além desse truque com as entrevistas, todos os capítulos são curtos (alguns inclusive sendo divididos em seções), o que facilita muito.

Minha citação favorita foi:

 […] o ideal é fazer as coisas com amor, jogar nelas tudo o que tiver dentro da alma, realizar sua poesia, espalhar sementes de sonhos. (p. 40).

Com certeza, é um daqueles livros para ler, reler, marcar com marca-texto (não que eu faça isso nos meus livrinhos) e fazer orelha nas partes favoritas.

Enfim, leia porque: é um bom jeito de ser apresentado a grandes pensadores do século XX, intelectuais que todo mundo que quer ser alguém na night tem que ter no mínimo ouvido falar em algum momento. Além disso, a escrita do Rubem Braga é bem gostosa de ler, as entrevistas são interessantes e fluídas (não é tipo páginas amarelas da Veja, então dá pra ler várias entrevistas na sequência sem cansar) e o livro é curtinho*.

Evite se: você não gosta de crônicas/entrevistas.

*Uma amiga minha me criticou por considerar isso uma coisa boa, mas não tenho tido a menor paciência com livros muito grandes ultimamente. Além disso, ser conciso não tem nada a ver com saber escrever, então vou continuar considerando isso uma coisa boa.

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