resenha

Uma Aventura Parisiense, Guy de Maupassant

Preciso confessar que escolhi mal o livro para esse desafio. Uma aventura parisiense e outros contos de amor é muito bom, tem uma leitura fluída, fácil, mas precisa ter fôlego para lê-lo em uma sentada só.

MLDEFERIAS (2).png

Para quem, como eu, não tinha tido nenhum contato anterior com a obra de Maupassant, esse livro é ótimo para começar! Esse livro é uma excelente introdução não só ao autor, mas também à literatura fantástica, de Flaubert e cia. São vários contos curtos, que retratam a sociedade francesa no final do séc. XIX, com muito bom humor e realismo. Apesar de ser tão antigo, não se trata de uma obra datada – a gente consegue fácil se colocar no lugar da mulher que não aguenta mais o marido (A Confidência), ou no pescador morto de medo ao encalhar no meio do rio em uma noite sombria (Sobre a água).

Alguns temas, como no caso no conto A acha (que eu não vou falar sobre o que é para não estragar a leitura hahaha), permanecem assustadoramente atuais – sérião mesmo, a mesma coisa aconteceu com um amigo meu na faculdade. Aliás, não se deixe enganar pelos momentos super românticos, como o do trecho abaixo. No que se trata de amor, o autor é um cínico, perspectiva com a qual, aliás, eu muito me identifico.

Por que amamos? É estranho enxergar só uma pessoa no mundo, ter um só pensamento na cabeça, um só desejo no coração, e na boca um só nome (…). Não vou contar nossa história. O amor só tem uma, sempre a mesma. Eu a conheci e a amei. É tudo.

Sim, é “literatura clássica”. Mas pode ler sem medo. A prosa flui, e Guy de Maupassant não tem um vocabulário muito empolado, daqueles que a gente precisa ler com o dicionário do lado – o que pode ser mérito da tradução também né, não tenho certeza. Enfim, recomendo!

 

Anúncios

Very Good Lives, J.K. Rowling

Sabe quando um livro fica encostado na estante sem nenhuma razão? Então. Apesar de eu ser fã da J.K., comprei esse livro, ele chegou aqui em casa e ficou séculos parado. Mesmo depois que a maratona começou, fui deixando ele pra depois. E agora entendo o porquê: estava me sentindo meio deprimida, meio fracassada, quando abri ele. E foi como se a JK tivesse me dado um grande abraço.

MLDEFERIAS.jpg

Falando sério agora, quem mais seria capaz de ensinar tantas lições, em um único discurso?

Olha só o que ela diz sobre pobreza (especialmente relevante depois de umas manchetes que eu vi por aí a respeito da Rafaela Silva, nossa judoca medalhista olímpica):

Climbing out of poverty by your own efforts – that is something on which to pride yourself, but poverty itself is only romanticized by fools.

E sobre trabalho:

So given a Time-Turner, I would tell my twenty-one-year-old self that personal happiness lies in knowing taht life is not a checklist of acquisitions or achievement. Your qualifications, your CV, are not your life, though you will meet many people my age and older who confuse the two. Life is difficult, and complicated, and beyond one’s total control, and the humility to know that will enable you to survive its vicissitudes.

Sim, é um livro curtinho. Mas me deixou arrepiada do início ao fim. Posso estar sendo parcial aqui, mas pra mim foi uma das leituras mais inspiradoras que eu já tive. Ler isso em um momento que eu mesma me sentia fracassada foi muito legal, e posso dizer com segurança que me ajudou.

Mesmo se você não esteja passando por um momento ruim, leia esse livro. J.K.Rowling é uma das pessoas mais sábias que já viveu na terra, e o livro está cheio de lições preciosas. E sem paternalismo: ela é humilde ao repassar o que aprendeu.

Recomendo muito muito muito. Aliás, fica aí a dica: esse livro é um excelente presente de formatura pros amiguinhos que gostam de ler, viu? Eu pelo menos teria adorado lê-lo quando sai da faculdade.

O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie

Quando Roger Ackroyd aparece morto em seu escritório, apunhalado pelas costas, muitos são os suspeitos. Seria o assassino o enteado de Roger, um viciado em jogo que sempre viveu às turras com o padrastro? Ou a inescrupulosa Mrs. Ackroyd, cunhada de Roger que vivia às custas de sua caridade? Diante de tantos mistérios, a sobrinha de Roger, Flora, resolve pedir que Poirot, recém chegado na cidade para aproveitar sua aposentadoria, investigue o caso. E é aí que a diversão começa.
MLDEFERIAS (1).png

Que livro! Que livro! Agatha Christie no seu melhor! A história começa mansinha, devagar, e no meio do livro chega até a empacar um pouco, mas no último terço, fica eletrizante, não dá para largar. Os personagens são incrivelmente simpáticos, até mesmo o Poirot, que às vezes me irritava por ser um pouco presunçoso. Desafio você a desvendar o crime antes do final, porque é impossível! As reviravoltas na trama são muitas, e você fica cada vez mais preso no que vai acontecer. É de pegar e não largar mais. Recomendo muito!

Tô indo para a França, Márcio Jardim

Isso que dá escolher um livro pra ler sem nem sequer abrir pra dar uma folheada antes. Escolhi To Indo Pra França para a maratona porque achei que seria um travel-log, um daqueles livros em que algum autor engraçado descreve as maravilhas e os perrengues que passou no exterior (nesse sentido, recomendo o excelente e engraçadíssimo Merde!, de Stephen Clarke). Mas na verdade, é um guia turístico. Fora do comum, é verdade, mas ainda sim um guia. Como estou com viagem marcada mesmo, prossegui na leitura.
MLDEFERIAS.png

E antes de sair do primeiro capitulo, já me deparei com algo que me deu vontade de desistir. Márcio Jardim é machista, galera. Se liga só no trecho abaixo:

Mas sugiro continuar com a depilação! Já imaginou você igual à Monga, a mulher-macaca, explicando para o seu namorado que ficará assim durante um ano para economizar dinheiro para a viagem? Um dos objetivos é não ficar solteira, não é mesmo? Lembre-se: solteiros gastam mais em viagens internacionais.

Tirando isso, até que foi bom seguir na leitura! O texto traz dicas boas pra quem quer ir pra Paris. Uma das passagens que eu achei mais útil foi a que ele lista os principais golpes que tentam aplicar nos turistas perto da Torre Eiffell, e como evitá-los. Informação bem útil e que não se encontra em qualquer lugar.

Agora, se você não tem vontade de conhecer Paris, a leitura não vale a pena. Nesse ponto, o livro é bem objetivo: Márcio Jardim vai contando sua viagem, dia por dia, monumento por monumento. Às vezes, chega a ficar detalhista demais: achei desnecessário descrever sua viagem de avião com tantos detalhes. Mas fora isso, é bem interessante. Marquei o livro com vários post-it’s, com certeza vou revisa-lo na hora de viajar.

Bonequinha de Luxo

Primeiro, preciso começar o post esclarecendo que sou fã da Audrey Hepburn há muitos anos e que Bonequinha de Luxo já era um dos meus filmes favoritos muito antes dessa bobagem toda com Gossip Girl. É sério – eu tinha My Fair Lady e Guerra e Paz em fita, e eram um dos filmes mais cotados aqui em casa, junto com Branca de Neve e a Bela Adormecida fui uma criança romântica, ok

Dito isso, preciso confessar que, apesar de ter visto Bonequinha de Luxo tantas vezes a ponto de saber as falas de cor, eu nunca tinha lido o livro do Capote que inspirou o filme. Então, quando vi que o desafio de março no Desafio Literário do Tigre era Filme ou Livro?, achei que era o momento.

Diz a sinopse:

Em Bonequinha de Luxo, novela de 1958, escrita com mão levíssima, o escritor norte-americano Truman Capote acompanha as estrepolias de Holly Golightly, a jovem que escapa da vida besta do interior para tentar a sorte na Nova York dos anos da Segunda Guerra. Moça de hábitos e horários nada ortodoxos, Holly põe em polvorosa uma galeria de personagens que vai de um mafioso preso a um escritor inédito, passando por um fotógrafo japonês, uma modelo gaga e uma cantora rouca – para não falar de um certo diplomata brasileiro. Tudo isso sem abandonar a visão de uma vida de luxo, calma e volúpia, se possível bem longe do Texas e bem perto da joalheria Tiffany’s. Celebrizada nas telas de cinema por Audrey Hepburn no filme homônimo de Blake Edwards, Holly é uma das criações mais felizes de Capote, mistura inextricável de ninfa diáfana e moça roçuda, tão viva e sedutora hoje como quase meio século atrás.

Olha, fico muito feliz que escolhi ler um livro sobre um filme que eu amo tanto! Um dos maiores baratos de ler Bonequinha de Luxo foi ir identificando quais falas foram para o filme, o que mudou e o que continuou a mesma coisa.

Tanto o livro quanto o filme possuem uma delicadeza única! A personalidade única da Holly, uma coisa que a gente já percebe no filme, ganha contornos mais complexos no livro, já que a gente tem acesso a mais informações sobre o passado dela, como, por exemplo, a respeito do fato dela ter conseguido uma grande chance em Hollywood, mas na última hora ter largado para ir morar em Nova York, simplesmente porque ela sempre quis morar lá. A relação dela com o Doc é um pouco mais creepy no livro do que no filme: ela é praticamente uma criança quando eles se casam, e fica bem claro que eles têm, desde o ínicio, uma relação bem marido e mulher, se é que vocês me entendem. A Holly do livro, aliás, só tem 19 anos, o que torna tudo um pouco mais triste – caso vocês não saibam, a Holly, tanto no livro quanto no filme, é uma prosti de luxo, embora essa informação sempre fique subentendida.

O livro é contado por um aspirante à escritor que vai morar no apartamento de cima do da Holly. No filme, o nome dele é Paul Varjak, e ele já tem um livro publicado, enquanto no livro o nome real dele nunca é mencionado (ele é chamado de Fred pela Holly, pela semelhança com o irmão dela), e ele só consegue, ao longo da história, uma pequena publicação em uma revista acadêmica. Outra diferença é que no filme ele é sustentado por uma mulher casada, que decora o apartamento dele e é chamada de 2-E – no livro, ele luta para se sustentar sozinho, tendo inclusive um emprego bem convencional (e chato). Ambos também se passam em épocas diferentes: o filme é ambientado nos anos 1960, enquanto o livro se passa durante a 2ª Guerra Mundial.

Pra mim, a grande diferença entre o livro e o filme é que o livro é uma história sobre a Holly, e no filme isso é transformado em uma história de amor. No conto do Capote, o narrador e a Holly nunca foram amantes, e muito menos acabam juntos. O que acontece com a Holly, aliás, é um mistério: a última vez que o narrador ouve falar dela, ela, que tinha vindo ao Brasil caçar um marido rico, está em Buenos Aires. O livro começa com Joe Bell, um bartender que é amigo em comum tanto da Holly quanto do “Fred”, informando que tinha ouvido falar que ela estava no Quênia. Joe Bell, aliás, foi cortado do filme, o que pra mim é uma pena, porque ele é um personagem intrigante, e de certa forma emblemático da história – ele é o dono/bartender de um bar perto do prédio onde os personagens moram, e é completamente apaixonado/obcecado pela Holly. O fato dele nunca ter a esquecido, e continuar procurando saber o que aconteceu com ela, mesmo anos depois deles terem a visto pela última vez, mostra o quanto a Holly era única, e a impressão que ela deixava em todos os homens. Esse mistério é um dos elementos que, junto com o fato de ser uma história sobre a Holly, e não uma simples história de amor, é que torna o livro uma obra-prima da literatura, e o coloca em um patamar mais alto do que o filme (não me entendam mal, o filme também é maravilhoso, mas acho que, ao ser transformada em uma história de amor, a genialidade do enredo do Capote foi sem dúvida diminuída).

Enfim, apesar de eu ter passado minha resenha inteira fazendo comparações entre o filme e o livro, acho que eles devem ser vistos como duas coisas separadas hahaha Cada um é maravilhoso do seu jeito! E eu recomendo MUITO MUITO MUITO o livro, não só para quem é fã do filme, mas para todo mundo que curte boa literatura! Ele é um livro genial, mas curtinho e acessível, então não tem desculpa para não ler, hein? haha

Para terminar, deixo aqui outros links interessantes relacionados com o assunto:

  • Resenha que a Patricia Quartarollo fez sobre o mesmo livro para o Desafio, caso vocês queiram ler uma opinião diferente da minha hahaha
  • Parte 1 de um documentário maraaa (tá todo no Youtube) sobre o filme, com entrevista do diretor, dos atores, e tal.
  • Querem comprar a casa da Holly? Tá à venda aqui, pela pequena pechincha de 5,8 milhões de dólares.


desafiodotigreBonequinha de Luxo foi lido para o Desafio Literário do Tigre. Neste mês, o tema era Filme ou Livro?, e esse provavelmente vai ser o único livro lido do mês, porque março tá puxado, viu? hahaha

Reading Round-Up: Fevereiro

Em fevereiro, apesar de ser um mês pequeno, eu consegui ler um bom número de livros! Então vamos lá:

fev

8.Como Proust Pode Mudar Sua Vida, do Alain de Botton – 4/5- Alain de Botton já entrou para a lista de autores favoritos da vida. Fiz uma resenha completa aqui.

9. Globalização e Espaço Geográfico, do Eustáquio de Sene – 3/5 – Li para o CACD. É um livrinho pequeno e bem didático sobre a questão da globalização, vista pela Geografia. Amei que explica muitas ideias do Milton Santos (AKA o geógrafo mais dificil de ler – e o mais cobrado – do mundo).

10Garoto de Ouro, da Abigail Tarttelin – 4/5 – Minha primeira leitura do mês para o Desafio Literário do Tigre. Fiz resenha aqui.

11. Goddess of the Rose, da P.C. Cast – 2/5 – Um pouco de lit-chick para dar uma desopilada. Tinha visto na livraria A Deusa da Lenda, outro livro da P.C. Cast sobre uma mulher da nossa época que vai parar na corte do Rei Arthur com a missão de resolver o triângulo amoroso Lancelot – Gwinevere – Arthur, e até comecei a ler, mas achei muito lixo e não consegui terminar. Daí fuçando no Goodreads achei Goddess of the Rose, que é basicamente uma adaptação do conto da Bela e a Fera (meu favorito!), sendo que a Bela é uma mulher moderna, e a história se passa em um cenário da Antiga Grécia. Fiz uma resenha mais completa no Goodreads.

12.1808, do Laurentino Gomes – 4/5 – Outra cortesia do CACD. Achei um livro excelente sobre a História do Brasil, principalmente para quem não curte ler linguagem acadêmica. Recomendo para todos os brasileiros haha

13It’s Kind of a Funny Story, do Ned Vizzini – 4/5 – Meu segundo livro do mês para o Desafio Literário do Tigre. Resenha completa aqui.

E é isso! O edital do meu concurso saiu esse mês, então eu espero que o meu ritmo de leitura vá cair um pouco em março (ou que mais livros acadêmicos comecem a aparecer aqui).

It’s Kind of a Funny Story

A capa que eu me refiro é essa, e não a capa que fizeram com o poster do livro.

Mais um livro super fofo que eu tive a sorte de descobrir escolhendo apenas pela capa! It’s kind of a funny story se parece muito com As Vantagens de Ser Invisível – Craig, o narrador, também é tímido/depressivo, apaixonado por uma garota inalcancável, etc. Não quero entregar muito da sinopse para dar a chance de quem não leu também escolher pela capa, mas achei It’s kind of a funny story mais profundo que Vantagens, talvez porque parte da história se passe em um hospital psiquiátrico.

Diz a sinopse:

A humorous account of a New York City teenager’s battle with depression and his time spent in a psychiatric hospital…

Goodreads se superando nas sinopses hahaha Mas hey, 8 mil pessoas votaram nesse livro como Best Teen Books About Real Problems!

Eu queria muito conseguir fazer uma review decente desse livro, porque ele é muito bom, tem lições importantes, mas, principalmente, é leve de ler. O enredo é super bem amarrado e os personagens são todos reais e multifacetados. Aliás, estava procurando mais informações sobre esse livro para escrever aqui, e descobri que o autor se matou no finzinho do ano passado, o que é incrivelmente triste, dado o fato de It’s kind of a funny story tratar de suicídio e como lidar com depressão. Então, imagino que parte do livro seja autobiográfica, porque o autor também lidava com depressão, e talvez seja por isso que esse livro é tão crível e realista. Um dos grandes trunfos desse livro, pelo menos para mim, é que ele consegue pegar um tema pesado como esse e tratar de uma forma leve, divertida e sensível.

Eu não sei se o livro foi lançado no Brasil ainda (alooou editoras, o que vocês estão esperando?) mas já saiu uma adaptação para o cinema, com o Zach Gahsjdiajfhdk (o Alan de Se Beber Não Case) e a Emma Roberts, sob o título babaca de Se Enlouquecer Não Se Apaixone:

 

O filme é bomzinho, mas acho que funciona melhor se você ler o livro primeiro – é mais um daqueles casos de “o livro é melhor” etc, mas vale por motivos de: Alan.

Enfim, recomendo tudo!


It’s kind of a funny story foi lido para o Desafio Literário do Tigre. No mês de Fevereiro, o tema era “Escolhendo pela Capa” e além desse livro eu li também Garoto de Ouro (tô superoverachiver haha). Em Março o tema é “Filme ou Livro?” e eu vou ler Bonequinha de Luxo, do Capote, me aguardem!